Versão em português de Enquête thématique n˚ 1 – « Liberdade, cidadania, introspecção », Maria Helena, Brasil-França

Neste momento, não fosse a situação de alarme sanitário vivida por muitas pessoas ao redor do mundo, muitos franceses, imigrantes residentes na França e descendentes de imigrantes estariam preparando-se para alta temporada turística de 2020. A primavera começa a fazer-se presente, com dias mais ensolarados, aumento das temperaturas e, por conseguinte, da circulação das pessoas pelas ruas, em áreas urbanas e rurais, com a clara motivação de desfrutar a vida e a cidade.

A notícia de que o presidente da França faria um pronunciamento na noite do dia 16 de março – notícia esta que recebi de um amigo, quatro horas antes – com o objetivo de informar aos cidadãos franceses e demais habitantes do país, que havia a necessidade de que cada um fizesse um movimento pessoal  de reclusão e isolamento físico, com o intuito de frear a expansão do coronavírus, calou-me… por alguns minutos…

Fonte: Phylogeny SARS-COV-2 (RUSSO, 2020).

O peso do silêncio, naquele momento, refletia a preocupação com a expansão dos contágios e da soma das incalculáveis perdas, que as sociedades começavam a viver. O crescente número de pessoas doentes, em diferentes países do sul e sudeste asiático, assim como na Europa, assomou-se às outras enfermidades e mazelas, individuais e sociais, pouco a pouco desveladas.

A situação, motivo de preocupação e alarme nas longínquos cidades chinesas, rapidamente converteu-se em inquietação e objeto central da preocupação para os países europeus, face à escalada do número de casos, calando milhares de famílias italianas, espanholas, estadunidenses, iranianas, francesas…

Fonte: Praia de Copacabana, Rio de Janeiro-Brasil – 20 março 2020 (PIMENTEL, 2 abril 2020).

Cidadania – introspecção

Cidadãos passaram à fiscais, vigiando e inquirindo seus co-cidadãos a respeito de suas condutas e, de outra parte, a « liberdade » para dizer o que se quer, a partir do interior das residências, ensejou o pronunciamento de valores bastante conservadores, por vezes temerosamente simpáticos à posturas autoritárias e totalizantes. Falas muito claras, a respeito de suas motivações, pronunciadas por diferentes pessoas conhecidas – mas de percepções do mundo desconhecidas  — narram “o que querem e desejam” e, não “o que querem e podem”, em reflexão análoga à Hannah Arendt.

Apesar do engajamento nas propostas de lideranças políticas, divulgadas por meio discursos bastante assertivos, nota-se o difícil alinhamento de condutas de uma massa de habitantes nos países. A apreensão em relação ao porvir, após o pronunciamento, promoveu uma corrida ansiosa, daqueles que podem, aos mercados, às drogarias e o esgotamento de gêneros alimentícios, produtos de limpeza e higiene pessoal, sobretudo do kit de álcool gel, água sanitária, papel higiênico, luvas descartáveis e máscaras.

Os comportamentos sociais, parecem oscilar, com diferentes gradações, entre a histeria, medidas exageradas de limpeza (obsessão?), o pânico e a ironia, descrença e subestimação dos impactos da situação. Entre esses extremos, há uma miríade de grupos, mais ou menos informados, mais ou menos engajados em cuidados de saúde, mais ou menos habituados à atualização e exercício de verificação de uma infinidade de notícias, pelo juízo crítico. Aparentemente, todas os comportamentos partem de leituras coerentes com alguma perspectiva da realidade, mas suas reflexões e as análises feitas, por meio de conjuntos de valores não pertinentes, assim como por conhecimentos parciais das questões em debate, levam à conclusões equivocadas da situação e às respostas completamente disparatadas.

Acompanhando diariamente o noticiário dos países com regimes democráticos, noto tanto nas entrelinhas, quanto em textos carregados de evidências,  a explicitação de enfermidades sociais e políticas, que passam a ser mais visíveis, senão escancaradas. As muitas conquistas de direitos, a valorização da liberdade e da diversidade, resultantes de pactos sociais dura e longamente definidos, ganhos do séculos de lutas em razão de tudo o que, socialmente, é considerado indispensável à sobrevivência humana e ao desenvolvimento socioambiental,  resistem, fragilizadas. 

Fonte: Moradores de rua no centro de São Paulo-Brasil (FRAISSAT, ZANONE, 2 abril 2020).

Os alicerces tornaram-se objeto de disputas, de ataques, quando não usados como disfarces para práticas políticas que distanciam o ser humano daquilo que delineia o caráter de, ser e permanecer, humano.

A “guerra contra a pandemia” tem impelido, a todos, a se revisitar; assim como, a olhar o seu próximo mais próximo. Incitou o convívio intenso e marcante no interior das casas, confrontou as pessoas com seus medos e limitações mais intimamente percebidas, agudizou problemas e tensionou conflitos ou estimulou o franco diálogo, a fruição do tempo com aquele(s) outro(s) que são as pessoas mais importantes e queridas para nós. Provocou mudanças cotidianas, a limitação da circulação urbana, a percepção e a consciência do que, de fato, nos é caro.

Mas esse revisitar-se, por ora, parece muito restrito ao âmbito individual, do diálogo do eu consigo, coabitando o espaço em que também manifestam-se a busca por entretenimento doméstico, a manutenção de atividades físicas estimuladas por tutorias virtuais, as experiências gastronômicas, a reinvenção do trabalho em ambientes web (com posturas descoladas e antenadas e alinhadas com “os novos tempos”), os mantras espiritualistas, as revelações religiosas e os discursos politiqueiros pautados por generalidades que borbotam no ambiente virtual; talvez, suscitem releituras a partir do contato, do diálogo com novas referências, com outras bases…

Fonte: Torre Eiffel, 23 março 2020 (Veronique de Viguerie/Getty apud BRENNER, 2020)

Vida social e cidadania obscurecida

Do ponto de vista socioeconômico provocou o colapso sem precedentes dos mercados no mundo, desde o fim da segunda guerra mundial. Em situação de grave fragilidade e de grandes prejuízos, empresas, empresários, nações assistem e/ou ensaiam caminhos de recuperação, na maioria das economias do mundo. Alguns poucos veem seus ganhos aumentar, especialmente nos segmentos da economia virtual, de empresas voltadas aos deliveries, dos produtos farmacêuticos e de higiene. Este colapso outrossim, escancara as desigualdades sociais, as fragilidades daqueles que sobrevivem da economia informal, a vulnerabilidade das pessoas em situação de rua, de comunidades subnormais, a importância social dos mais velhos (também para as sociedades), a debilidade dos sistemas de saúde e de ensino, bem como o distanciamento social, as descrenças em lideranças políticas, em alguns países. 

Fonte: Vista aérea da favela de Paraisópolis, São Paulo-Brasil (KNAPP, 2020).

A economia dos serviços, a financeirização da economia, a valorização de privilégios, a concentração de capital entre outros, em detrimento dos investimentos e desenvolvimento sustentável em inovação, tecnologia, ciência, humanidades e artes, desvelam ainda, por exemplo, os desinvestimentos em educação, saúde e infraestrutura…

As sociedades, constantemente, confrontam-se com os problemas de diferentes ordens: sociais, econômicos, políticos, ambientais e culturais; socioeconômicos, socioculturais, político-econômico, ecológico-econômico, sociopolíticos etc. Em um contexto como a atual, tais problemas expõem as limitações de ações individuais distanciadas das demandas coletivas, assim como da sobrevivência e do desenvolvimento sustentável das sociedades. Os resultados de ações e políticas socioeconômicas, tanto no plano individual quanto coletivo/social, distantes das demandas da sociedade civil organizada e não organizada, pesam a favor e contra, no curto e no longo prazo, impactando direta e indiretamente, a todos os membros da sociedade. 

A pobreza habita mais próximo do que pensamos, transita em recantos obscurecidos, dentro e fora. Apesar de todos os conhecimentos, de todos os recursos, de toda a força produtiva que as sociedades possuem, o delineamento de condições socioambientais mínimas para o desenvolvimento livre e amplo do ser humano continua distante de ser a base de nossos propósitos sociais. O que respeita e inclui a mais frágil das vidas, das nossas gentes e, por conseguinte, de todos os demais seres, não ilumina nossos horizontes… 

Referências

ARENDT, H. 2009. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva.

FRAISSAT, ZANONE. Moradores de rua na região central de SP. In: SANT’ANNA, Emilio. São Paulo tem 7.000 pessoas vulneráveis ao coronavírus morando nas ruas. São Paulo: Folha de São Paulo. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/03/sao-paulo-tem-7000-pessoas-vulneraveis-ao-coronavirus-morando-nas-ruas.shtml>. Acesso em: 02 abr. 2020.

KIMMELMAN, Michael. The Great Empty: Photographs by The New York Times. Disponible en: https://www.nytimes.com/interactive/2020/03/23/world/coronavirus-great-empty.html>. Accès en: 02 abr. 2020.

KNAPP, Eduardo. 28 mars 2020. Vista aérea da favela Paraísópoles. In: OLIVEIRA, Samara. Favelas da região metropolitana do Rio criam movimento contra o coronavírus. São Paulo: Folha de São Paulo. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/03/favelas-da-regiao-metropolitana-do-rio-criam-movimento-contra-o-coronavirus.shtml>. Acesso em: 02 abr 2020.

PIMENTEL, Mauro. Vista aérea da praia de Copacaba. In: GAIER, Rodrigo Viga. Em cenário inédito, areais de Copacabana ficam vazias com anúncio de suspensão de acesso à praia. Disponible en: <https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2020/03/20/em-cenario-inedito-areias-de-copacabana-ficam-vazias-com-anuncio-de-suspensao-de-acesso-a-praia.htm>. Accès en: 02 abr. 2020.

RUSSO, Claudia. Phylogeny SARS-COV-2. (in progress)

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