“Enquête thématique n˚ 3” – “Comunidades em fronteiras” , Maria Helena, Brasil/França

Desde 16 de março vivemos em situação de isolamento físico, embora os meios de comunicação de massa falem, constantemente, em isolamento social ou confinamento. Não rompemos nossas relações sociais com pessoas que nos são caras, nem mesmo com a sociedade e, tampouco, todas as sociedades, em todo o mundo, tem sua vida cotidiana restrita exclusivamente aos espaços da vida privada. Com diferentes gradações, na maior parte dos países com situações agravadas de contágio, as pessoas experimentam algumas poucas e breves saídas.

Observando o desenrolar da pandemia ao redor do mundo, por meio do noticiário internacional, das publicações em redes sociais e das mensagens em grupos de whatsapp, noto que entre as preocupações, questões e debates, os assuntos mais frequentes são as especulações e descobertas científicas a respeito do coronavírus, preocupações com o controle da pandemia, os impactos econômicos, o fechamento/abertura de fronteiras … entre outros diversos. Em geral, os debates colocam-se em pelo menos três perspectivas: o que é considerado essencial, do ponto de vista da gestão das cidades e países (no presente e no futuro); os impactos da pandemia (sobre a ecologia, espaços, economia, política, trabalho, assistência social, educação e sobre diferentes coletividades); assim como, o que é “apontado como essencial”, na perspectiva dos indivíduos, para a manutenção da vida. 

Por razões objetivas, me parece razoável iniciar por observações de elementos que, possivelmente, conformam esse “essencial” no cotidiano das pessoas. Partirei do ambiente em que vivo, buscando refletir a respeito das permanências e algumas correlações possíveis com aspectos mais amplos da vida social. Inicialmente, quando desenhava o projeto de pós-doutorado, planejei desenvolver essa pesquisa morando em um barco. Isto porque, analisar uma cidade a partir de uma embarcação, em minha perspectiva, aportaria um olhar distinto acerca da cidade e de suas dinâmicas. Essa ideia surgiu do fato que, além de professora e pesquisadora, sou velejadora, mas após conhecer um pouco melhor o contexto da vida e do turismo náutico nos canais na França, no último ano, esse projeto foi alterado. Apesar desta alteração, minha experiência pessoal no âmbito da vida náutica tem contribuído para o desenvolvimento de exercícios etnográficos neste período de isolamento, no porto em que estou, no Canal do Midi. Esse ambiente do porto em Sallèles d’Aude reúne, oportunamente, alguns elementos caros à minha pesquisa de pós-doutorado: “comunidade de residentes” e turistas, com suas atividades e seus comportamentos de vida social vinculados ao cotidiano e aos momentos de lazer e turismo. 

Porto em Sallèles d’Aude – abril 2020 (arquivo pessoal da autora).

“Comunidades” de velejadores… 

Das relações que mantenho com grupos de velejadores brasileiros – no Brasil e distribuídos em diferentes comunidades pelo mundo -, observo relações com estreitos vínculos, conversas constantes em grupos de whatsapp (menor grau de interação grupal no facebook), uma vida social intensa nas marinas e portos, assim como a organização de grupos para visitas de cidades, encontros e celebrações em espaços caros a estes grupos (no meio de baías, em ilhas, praias, vilas e cidades etc.), desde que, fora do ambiente de ancoragem dos barcos. Todos, indiscutivelmente, sempre buscam uma desculpa para navegar, para um encontro em qualquer lugar em que seja possível chegar navegando; as mobilidades (URRY, SHELLER, 2006), no espaço fluído, são parte da alma destas pessoas e o momento presente, é o tempo que mobiliza toda sua atenção. Em geral são grupos muito amistosos, que compartilham impressões a respeito da beleza do mundo, mas também trocam intensamente informações relativas à manutenção e conservação de embarcações, aos estudos de clima e de navegação, à segurança e infraestrutura favorável para ancoragem nos pontos de destino, entre outros assuntos. Todos, tanto entre os mais reservados quanto entre aqueles com comportamentos sociais mais expansivos, trocam intensamente materiais, recursos, informações, experiências. Estes intercâmbios reforçam os vínculos entre os membros dos grupos e suas redes de solidariedade, porque a vida na navegação marítima, entre outras coisas, supõe disposição para a parceria, para a ajuda – ninguém sabe quando precisará ajudar ou ser ajudado e a vida dos navegadores sempre está em jogo, dado que somos muito frágeis e, invariavelmente, o ponto mais fraco em face à força e grandeza do meio ambiente.

Quando comecei a velejar e ler a respeito da prática da vela, recebi duas advertências relativas à vida a bordo, de meu atual noivo e que, a época, era apenas um amigo, além de um famoso velejador e navegador no Brasil. Em um primeiro momento, do ponto de vista teórico, essas advertências fizeram muito sentido, mas durante a minha primeira travessia oceânica (jun-jul/2019), tornaram-se irrefutáveis: 1) “o barco não aceita mentiras”; 2) “não tente vencer a natureza; ela é mais forte que você”. 

Travessia do Oceano Atlântico – jun/jul 2019 (arquivo pessoal da autora).

A primeira advertência está diretamente vinculada à segurança da embarcação e de seus tripulantes; se a conservação, manutenção e limpeza não for feita adequadamente, com os produtos certos e tudo for mantido em perfeita ordem e estado de uso, na primeira tormenta, no primeiro momento de adversidade (interna ou externa à embarcação) é este item que colocará a segurança de todos em risco – e aqui me refiro à embarcação, aos seus tripulantes, às embarcações próximas e tripulantes próximos. A segunda advertência, por sua vez, nos pontua que somos parte de um meio ambiente e deste dependemos; cuidar do ambiente em que estamos, gerar o mínimo impacto, consumir a menor quantidade de recursos possível, nos propicia uma vida mais saudável e segura. Navegadores lidam constantemente com três restrições: de água potável, de alimentação e de energia, dado que uma embarcação tem limites em termos de armazenamento e, eventualmente, de produção de água potável, alimento e energia (elétrica e de combustível). Portanto, há limites de autonomia para vida em alto mar, em termos de tempo de permanência distante da costa. Vale lembrar que esses limites são também redefinidos, a cada período de navegação, por variáveis externas – intempéries climáticas, por exemplo. Outrossim, cuidados com o descarte de resíduos (sólidos ou líquidos) e com consumo responsável de recursos (alimento retirado do mar, por exemplo), devem fazer parte da rotina; cuidados e respeito à ecologia do lugar em que estamos, gera menor impacto ambiental e, por consequência, menor impacto na embarcação e/ou na vida dos tripulantes – há uma percepção clara, por parte da comunidade de velejadores, da relação de interdependência entre ser humano e meio ambiente. No entanto, estes apontamentos não são necessariamente válidos para os grupos de pessoas proprietárias de barcos classificados como lanchas; este outro grupo, em geral, passa menos tempo embarcado, há uma minoria que vive regularmente nos barcos e tem outro comportamento de uso do mar e nas relações no ambiente náutico.

Em meio à água doce, um pouco mais de distância

Estas eram algumas das referências que tinha de vida náutica, antes de viver experiências dessa natureza na França, um país que é referência mundial para velejadores. Nossas bagagens em termos de conhecimentos estão sempre presentes em nossas observações, análises… Nesse período de quarentena vivo embarcada em uma pequena penichette no Canal do Midi, ambiente em que desenvolvo exercícios de observação etnográfica, que permitem aperfeiçoar o trabalho de pesquisa de campo de meu pós-doutorado, em Lyon. Viver embarcada em uma penichette é muito diferente de viver embarcada em um veleiro, a começar pela ausência de ondas; o Canal do Midi é muito estável. O porto em que estou é um porto que suporta intensa atividade de manutenção de barcos, de uma empresa de charters náuticos e, por isso, permite que barcos ancorem para manutenções estruturais ou de equipamentos, mas também abriga diferentes barcos de proprietários individuais. Há aproximadamente 30 embarcações ancoradas, de proprietários individuais, que são utilizados, em sua maioria, como segundas-residências, no período de férias e nos meses mais quentes do ano; uma prática de lazer limiar, que se coloca entre o turismo e o cotidiano… Entre julho e agosto, a vida, as dinâmicas e o ambiente da marina mudam muito; afirmo isso com base na experiência de vida à bordo do ano de 2019, quando desfrutei uma parte de minhas férias neste porto. Há muito mais gente nos barcos, um trânsito intenso de embarcações de charter no Canal, conversas coletivas e celebrações entre tripulantes são frequentes (sempre há assunto para uma conversa coletiva). O fluxo de pessoas praticando esportes ou passeando nas margens do Canal, também é maior. Mas, nos outros meses do ano, as pessoas que transitam ou vivem na marina, assim como as dinâmicas, são variadas. No inverno há pouquíssimas pessoas vivendo embarcadas: eu e meu noivo; um inglês; dois casais – uma francesa e um cigano espanhol (cada um deles em seu próprio barco) + duas inglesas em outro barco; um Senhor francês; e um jovem francês – a maioria com idade superior a 50 anos. Apenas em dias ensolarados e/ou um pouco mais quentes, há pessoas praticando esportes ou passeando pelas margens do canal (observações feitas a partir das experiências dos invernos de 2019 e 2020). Na primavera, a quantidade de pessoas que vive embarcada mantém-se estável, há um aumento considerável no número e diversidade de pessoas que transitam pelas margens do canal e pequeno crescimento no trânsito de embarcações no canal – algumas param aqui no porto para abastecimento de água, combustível ou, ainda, ancoram por um período curto, para manutenção de suas embarcações. As dinâmicas de outono são para mim ainda desconhecidas; esse é um período em que usualmente estou dedicada às atividades do semestre letivo no Brasil e a participação em eventos científicos (há uma grande concentração de encontros da comunidade acadêmica no terceiro  e quarto trimestres do ano). 

Conversas informais entre habitantes do Porto – maio 2020 (arquivo pessoal da autora).

O inverno de 2020 foi muito menos rigoroso do que o inverno de 2019 e, talvez por consequência disto, mais pessoas viveram embarcadas aqui no porto de Sallèles d’Aude (com exceção do inglês, todos os outros barcos já estavam aqui há mais de um ano, mas as únicas pessoas vivendo à bordo, em 2019, eram eu e meu noivo). A primavera manteve a mesma quantidade de pessoas embarcadas, com aumento no fluxo de passantes e das relações entre aqueles que estão embarcados, assim como destes com os passantes. Estas relações são sempre amistosas, permeadas por saudações e por conversas breves, que começam espontaneamente. Entre os que vivem embarcados, não há encontros diários, mas de certa forma são regulares; entradas e saídas para ir ao mercado, depositar o lixo nas lixeiras da marina, uso do banheiro do porto, uso da oficina, abastecimento de água nos barcos, resolução de problemas com o Capitão do Porto e curtas caminhadas, são as atividades que fomentam a maioria dos encontros e conversas entre os tripulantes. 

Esses tripulantes não conformam uma comunidade, considerando, por exemplo, os estudos de Redfield (1989), Laval (2016), Lézé (2008) e Magnani (2003). A situação de vida sobre uma fronteira, em um limiar (entre o urbano e o rural, entre o sedentarismo e a mobilidade, entre o público e o privado, entre a rotina e o inusitado, entre o essencial/fundamental e o dispensável), aproxima-se do contexto caracterizado por interconexões de fronteiras ou mais propriamente, por uma zona de contatos, examinado por James Clifford (1997), sob a denominação borderland. Os residentes do porto conformam dois ou três grupos de amigos, grupos com características bastante heterogêneas e que mantém entre si, sempre que possível, relações amistosas e/ou de civilidade. Em uma apreciação inicial, poderia sugerir que navegantes são simpáticos aos contatos com públicos diversos, de maneira geral não apresentam impaciência ou resistências face aos imprevistos, são bem humorados e não vivem uma vida de muitas rotinas. A separação entre vida privada e pública é muito estreita e quase não há espaço de transição (físico, temporal e social) entre um ambiente e outro, tanto que, quando menos se espera, há alguém do lado de fora do barco lhe convidando para algum programa, solicitando auxílio ou mesmo desejoso de uma conversa que começa sem qualquer planejamento prévio. Isto não quer dizer que desenvolvam relações de grande proximidade ou amizade intensa e, talvez, isso deva-se ao fato de que a possibilidade de levantar âncora e instalar-se em outro porto está nos planos de todos. Mobilidades, relações multiculturais e intercâmbios interculturais fazem parte do dia a dia dos navegantes; estão presentes nas práticas pessoais, nas experiências de vida desses tripulantes e/ou caracterizam as dinâmicas dos lugares em que vivem. Não são, também, um grupo fortemente caracterizado pela vida nômade; o deslocamento está em seus horizontes, mas aqui no porto de Sallèles d’Aude, a maioria tem seu barco ancorado no mesmo lugar, há muitos anos. Como a proximidade com o urbano, com a cidade, é grande, as relações de interdependência são mantidas, inclusive, para a execução de atividades corriqueiras ligadas à vida náutica. Poucos destes proprietários de barcos sabem o que é viver em alto mar, por várias semanas seguidas e ter que estar preparado – fisicamente, tecnicamente e mentalmente – para fazer pessoalmente tudo o que for necessário, desde manutenção na embarcação e em seus equipamentos, até o preparo de um cardápio variado com insumos simples (que mesmo armazenados por muito tempo, mantenham-se conservados). Navegantes, sobretudo velejadores acostumados às longas viagens marítimas, estão habituados a viver em isolamento; suspeito até que tenham um gosto particular pela reclusão, mesmo aqui, em um ambiente que permita simultaneamente o contato com o meio ecológico, o desenvolvimento de atividades in door (leitura, tv, filmes, música, atividades manuais, gastronomia, etc. – atividades mais comuns aqui nesse ambiente de porto) e cuidados com a embarcação: para os apaixonados por manutenção de barcos, há um cardápio amplo de atividades, tais como reparos em fibra de vidro, mecânica, estruturas metálicas, sistemas hidráulicos e elétricos etc. Entretanto, os tripulantes que estão aqui no porto são pouco simpáticos à prática de atividades físicas; realizam algumas curtas caminhadas; apenas eu e meu noivo fazemos exercícios regularmente – caminhadas, roteiros de bicicleta, corrida, alongamentos. 

Uma coisa que me chama muita atenção: uma vez acordado e tendo levantado-se da cama, é necessário estar preparado para qualquer situação. Quando digo preparado, digo pronto para sair do barco e fazer qualquer atividade que deseje, para a qual seja convidado ou para resolver questões relacionadas a um imprevisto; essa é uma dinâmica muito diferente à da vida em uma área urbana. Enquanto escrevia este texto, por exemplo, em um dia chuvoso após duas semanas de chuva intensa (clima completamente atípico para essa região, sobretudo nesta época do ano), ouvi um estrondo e senti o barco balançar; levantei de súbito para verificar o que estava acontecendo e uma árvore despencou em cima do barco que está ancorado exatamente à frente do nosso, em razão do solo muito encharcado e do plantio de espécie inapropriada para o espaço e seus usos.

Barco atingido por uma árvore – abril 2019 (arquivo pessoal da autora).

Essa situação de emergência acarretou a interrupção da escrita do texto, minha mobilização para avisar o Capitão do Porto a respeito do acidente, para avisar o casal de proprietários do barco atingido – que são nossos amigos – e oferecer o suporte necessário à ambos. De outro lado, me fez refletir sobre algumas questões, que abrem temas para aprofundamento de minhas investigações: 1) há ausência de linearidade nos acontecimentos do cotidiano – na vida à bordo esta não-linearidade é flagrante; 2) mesmo acontecimentos tão impactantes e absorventes como este, não contribuíram de forma distintiva para a conformação de uma comunidade; a priori, não estreita os vínculos sociais, não reforça sentimentos de pertencimento, não amplia laços afetivos entre seus integrantes, não fomenta engajamento sociopolítico em relação às demandas comuns…

Referências

AGIER, M. 2011. Antropologia da cidade – lugares, situações, movimentos. São Paulo: Editora Terceiro Nome.

CLIFFORD, J. 2008. De la réarticulation en anthropologie. L’Homme, Miroirs transatlantiques, p. 41-68.

CLIFFORD, J. 1997. Spatial Practice, Fieldwork, Travel, and the Disciplining of Anthropology. In: J. C. Routes, Travel and Translation in the Late Twentieth Century. Cambridge, Harvard University Press, p. 52-91.

GOUETE, V; HOFFMAN, O. 2006. Communauté- un concept qui semble poser problème à la geografie française, p. 263-275. In: SÉCHET, R.; VESCHAMBRE, V. Penser et faire géographie sociale, Presses Universitaires de Rennes, 2006, 398 p. 

LAVAL, C. 2016. “Commun” et “communauté”: un essai de clarification sociologique. SociologieS, Dossiers. Toulouse: AISLF, InSHS, CNRS.

LÉZÉ, S. 2008. Cherry Schrecker, La communauté. Histoire critique d’un concept dans la sociologie anglo-saxonne. L’Homme, Miroirs transatlantiques, p. 187-188.

MAGNANI, J. G. C. 2003. Festa no pedaço: cultura popular e lazer na cidade. São Paulo: HUCITEC, UNESP.

REDFIELD, R. 1989. The little community and peasant society and Culture. Chicago: University of Chicago Press; Midway Reprint.

SHELLER, Mimi; URRY, John. 2006. The new mobilities paradigm. Environment and Planning, v. 38, p. 207-226.

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