Versão em português da Enquête thématique n˚ 7 – “ Conflitos de interesse…”, Maria Helena, Brasil/França

Os preparativos para a temporada turística de verão, como era de se esperar, começaram antes do início da primavera e da pandemia COVID-19. Diferente de outros momentos da história, precisaram ser revistos em razão da pandemia, contexto que ocasionou relevantes alterações na preparação e nas projeções – sobretudo de receitas – para 2020. 

No Porto em Sallèles d’Aude previa-se a chegada de diferentes embarcações de charter e, consequentemente, turistas, que confirmariam as dinâmicas historicamente estruturadas de valorização do patrimônio, de desenvolvimento local-regional, assim como de desenvolvimento turístico e de reafirmação do lazer e dos direitos sociais e trabalhistas duramente conquistados – de livre desenvolvimento do ser humano, de livre gestão pessoal do tempo, de ter direito a um tempo livre de obrigações externas/de trabalho e de ter direito à ter direitos. 

No que diz respeito às rotinas deste Porto, após um período de ausência de gestão, anunciava-se não apenas a mudança do Capitão do Porto e a alteração da pessoa responsável pelo acompanhamento de suas rotinas diárias (do “guardião”), mas também a instalação de um estabelecimento de A&B (uma creperia), em um espaço desocupado e de acesso independente, no edifício da oficina. Maior atenção e suporte, especialmente às demandas dos turistas, alinhavam-se com o fortalecimento do “ status quo” turístico do pequeno e dinâmico Porto, bem como a um processo de melhoria dos processos de gestão de suas rotinas, de maior profissionalização.

As boas novas trouxeram alguma calma para os ânimos dos tripulantes residentes no Porto, dado que as dinâmicas de abastecimento de água, bem como de uso da rede de energia elétrica externa – como mencionado nas enquêtes thématiques n˚ 3 e n˚ 5 – de uso dos banheiros coletivos e de saída e entrada no ambiente de ancoragem das embarcações, desenvolviam-se de acordo os ânimos de uma antiga “guardiã”. A vida ordinária e cotidiana era repleta de sobressaltos; a Senhora a quem foi imputada à responsabilidade de “guardiã” explicitava uma vida pessoal bastante atribulada – alcoolismo, desequilíbrios emocionais, dificuldade no relacionamento interpessoal, irregularidades nas relações trabalhistas com Porto etc. – que ocasionava ações um pouco destemperadas e repercutia nas atividades diárias dos residentes, colocando o tratamento de suas demandas ao sabor das apreciações e vontades pessoais da “guardiã”.

A notícia de que um antigo trabalhador do Porto assumiria o posto de Capitão e que a antiga “guardiã” se desvincularia de seus “compromissos” com as tarefas rotineiras – circulada informalmente – prenunciava uma nova fase, de maior tranquilidade no desenvolvimento das atividades ordinárias. A “guardiã” partiria para assumir novas funções laborais em outro país e em seu antigo espaço de moradia – uma pequena habitação ao lado da oficina – seria acomodado um empreendedor, o novo “guardião”. Além de oferecer suporte às  atividades rotineiras do Porto, instalaria uma creperia e um serviço de locação de bicicletas, serviço este último voltado ao atendimento das demandas dos turistas das empresas de charter náutico, que desejam conhecer mais de perto as cidades, os vinhedos e atrativos dos arredores, além de desfrutar da paisagem do Canal do Midi, a partir de uma nova perspectiva.

Transcorridos alguns meses, em meados de abril, chegaram no Porto o empreendedor e sua consorte. Como vinham de uma cidade e Porto próximos, não tiveram problemas com o deslocamento, durante a pandemia COVID-19. Iniciaram imediatamente os trabalhos de reforma e organização tanto do espaço de residência quanto do espaço em que será instalada a creperia (atividades que, por sinal, seguem em andamento). O novo “guardião”, aos poucos, foi conhecendo os residentes, sempre em contatos amistosos, permeados por conversas e gestos gentis.

Mas, como era de se esperar, considerando as notícias publicadas nos diferentes meios de comunicação de massa, a temporada turística seria fortemente impactada pela pandemia. Além disso, as previsões para o turismo não eram nada positivas, dado o fato de que região em que está o Porto tem uma peculiaridade adicional: recebe um fluxo intenso de turistas espanhóis, país de origem também bastante afetado com a pandemia do COVID-19.

Manutenção do “status quo” turístico entre dois mares…

A cidade de Sallèles d’Aude e outras cidades próximas na região desfrutam de uma condição de localização geográfica bastante interessante, que reune atrativos turísticos de caráter bastante diversificado. Estas diferentes cidades, que também assumem o papel de destinos turísticos, estão próximas ao mar Mediterrâneo, em uma região outrora parte do Império Romano, do qual herdaram patrimônio material singular (diversos edifícios, sítios arqueológicos hoje bens culturais, que estão presentes nas dinâmicas urbanas e em uso cotidiano), além de singularidades culturais imateriais (gastronomia, produção agrícola, línguas – patuá etc.).

Mas os impactos da pandemia no Canal do Midi, nesse primeiro momento, tem levado empresários e instituições a pensar alternativas de ganhos financeiros que custeiem a manutenção de atrativos e empreendimentos voltados, sobretudo, ao Turismo. A semana de celebrações da Páscoa representa não apenas uma semana especial para os cristãos, mas também uma semana particular para o turismo na região “La Narbonnaise Surprenante Méditerranée”; turistas espanhóis – público turístico predominante nesse feriado – oportunizam ganhos financeiros substanciais para as empresas ligadas aos segmentos de turismo de cruzeiros, de alimentos & bebidas (restaurantes, bares, boulangeries etc.), de agenciamento (guias de turismo). Sua presença, assim como dos turistas de outras nacionalidades, além dos impactos econômicos, promovem a dinamização de instituições, da vida social e cultural, em um período que de certa forma marca a reabertura da temporada turística de verão, com a retomada do atendimento público em equipamentos culturais (museus, castelos, torres, fortes, ruínas, edifícios religiosos etc.), da realização de eventos em espaços públicos e da visitação das cidades no entorno do Canal do Midi.

Mas, em tempos de crise, as perspectivas de ganhos financeiros decorrentes do turismo, no pré e pós pandemia, tem demandando revisões e, no Porto, resultaram em ideias assemelhadas à soluções mágicas. 

A partir das práticas de outros Portos da região, o novo “guardião” sugeriu a alteração dos procedimentos de uso dos banheiros coletivos, implementando um mesmo sistema de cobrança para uso, tanto por residentes enquanto por visitantes/turistas. A iniciativa gerou um grande desconforto entre as pessoas que vivem embarcadas, isto porque, apesar de prontamente acatada pelo Capitão do Porto e em nenhum momento oficialmente comunicada ou debatida com os residentes e proprietários de embarcações, sua sugestão desconsiderou que: I) a contratação da ancoragem dos barcos no Porto supõe pagamento de taxa mensal e uso coletivo de seus espaços (tendo em vista os antigos contratos vigentes); II) a cobrança do uso dos banheiros demandaria um novo sistema de higienização, manutenção e conservação.

Do ponto de vista da tripulação do Porto, as contradições/questões assumem outra complexidade: os valores de ancoragem aqui praticados, sensivelmente mais elevados que em outros Portos próximos, dotados de melhor infraestrutura e localização geográfica, não inclui os custos de uso da rede de energia elétrica e de abastecimento de água, que neste Porto são pagos à parte; nos outros Portos próximos, uma quantidade pré-definida kilowatts de energia e de de litros de água, pode ser consumida, sem custo adicional. Outros Portos da região também desfrutam de localização e situação turística mais atrativa (próximos de maior diversidade de atrativos e de rede de serviços, além de mais facilmente acessados por rede de transporte pública coletiva) e, portanto, as relações entre custos e benefícios enquadra este Porto em uma situação pouco atrativa para ancoragem, pelo menos, para uma parte dos navegantes que vivem embarcados (haja vista a “saída à francesa” de aproximadamente quatro embarcações, nos últimos cinco meses). De mais a mais, a relação entre custo e preço (material e imaterial), implicada na permanência em um Porto que enseja uma vida de sobressaltos, reduz as probabilidades de permanência de tripulantes residentes.

Do ponto de vista da oferta, a abertura permanente dos banheiros aos passantes, implicou inicialmente a revisão do sistema de controle de acesso: a porta principal de acesso ao banheiro ficaria constantemente aberta, assim como as portas das cabines dos toilettes, enquanto que as portas das duchas passariam a ter fechaduras.  Não foram consideradas as dinâmicas possíveis de usos deste banheiro, considerando a nova proposta: além dos navegadores residentes, turistas em passagem pelo porto, ciclistas, pescadores, transeuntes, clientes da creperia, entre outros, poderiam utilizar os toilettes; haveria aumento do número de usuários e, consequentemente, maior demanda de serviço de higienização, manutenção, conservação e oferta de papel higiênico e toalhas. A busca por uma nova fonte de receita parecia desenhar-se pela dupla oneração do custo de vida dos residentes: sobrecarregando-os, cotidianamente, em termos materiais e de trabalho coletivo, com as tarefas de limpeza e na organização das condições mínimas materiais de uso do banheiro que, até o momento, estavam sob a responsabilidade dos residentes (encarregavam do custeio de materiais de limpeza, papéis higiênicos, toalhas, assim como do revezamento na limpeza do espaço).

A área do Porto não é um espaço privado e compreende, na prática, um espaço de uso e gestão mista – pública e privada, de fácil acesso àqueles que circulam pelas estradas próximas, dado que na área adjacente ao Porto há uma rodovia, que o conecta à diferentes outras cidades turísticas da Região. Por essa razão, supõe o trânsito de diversos grupos sociais, além dos proprietários de embarcações, inclusive nos espaços em que estão as embarcações. Circulam livremente pela área do Porto residentes das cidades próximas ou aqueles que estão na condição de visitantes/turistas – tanto ligados ao turismo náutico, quanto adeptos de camping cars, turistas motociclistas, ciclistas e pessoas que viajam com seus veículos de passeio privados ou em pequenos grupos, ciceroneados por empresas de turismo receptivo da região. 

A alteração dos procedimentos de uso dos banheiros coletivos, gerou conversas e mobilizações entre os residentes, com vistas à refrear tentativas de transferência dos custos de manutenção do status turístico do Porto e do fracasso das projeções de ganhos na temporada turística de 2020, para a “comunidade local”.  Se de um lado não há oferta de serviço com valor agregado que justifique o aumento dos custos de ancoragem e revisão de contratos vigentes, de outro, as medidas de cobrança anunciadas por cartazes afixados na porta do banheiro explicitaram tanto a ausência de canais de comunicação oficiais e formais entre o Capitão do Porto e os proprietários de embarcações, quanto diferentes fragilidades de gestão e administração financeira, tanto no Porto, quanto de outras instituições à este vinculadas (VNF, CCI, etc.). 

Costumeiramente, as informações relativas às rotinas e cotidiano do Porto são compartilhadas pessoalmente, de maneira informal, prática que, apesar da rapidez de comunicação face a face, facilita decisões unilaterais de alteração de serviços contratados, resultando na quebra dos contratos anteriormente celebrados, em tensões adicionais e no enfraquecimento das relações de confiança. 

Vidas em mobilidades: olhar com “olhos de ver” 

Quanto trata-se de um público vinculado às mobilidades (viajantes, turistas, navegadores, adeptos ao camping-car, ciclistas etc.), é sabido, entre os pesquisadores do Turismo, que tal público vivencia atividades peculiares, dado que no Turismo:

  • a produção e o consumo se dão simultaneamente e o tempo programado para sua fruição não pode ser “estocado” (é simultâneo e perecível); 
  • porque a busca por uma experiência é pautada por um sonho ou um desejo longamente acalentado pelo turista, para a qual ele reservou tempo, antecipou pagamentos e fez economias; 
  • porque as demandas imateriais associadas à viagem talvez sejam bastante superiores às demandas materiais (é intangível e variável em seu valor percebido); 
  • porque a prestação de serviços e o consumo turístico dá-se em uma aura de busca pelo prazer em mobilidade – o turista busca o máximo de satisfação e bem estar, em um local distinto de sua cidade de vida cotidiana, possivelmente em um momento no qual muitas pessoas vivenciam essa mesma situação (é sazonal e limitado); 
  • porque o atendimento da demanda dos diversos turistas supõe a oferta de produtos e serviços complementares e interconectados (é sistêmico e de difícil controle e gestão). Por sua peculiaridade, há muitas décadas, diversos pesquisadores e profissionais envolvem-se na investigação, especialização e profissionalização voltada à atividade turística, pensando em seu melhor planejamento, oferta, gestão e avaliação, bem como uma experiência singular na perspectiva do turista.

Em razão da peculiaridade do Turismo, há muitas décadas, diversos pesquisadores e profissionais envolvem-se na investigação, especialização e profissionalização voltada à atividade turística, pensando em seu melhor planejamento, oferta, gestão e avaliação, bem como uma experiência singular, na perspectiva do turista. 

Sua potência econômica tem atraído a atenção de muitos países, cidades e pessoas, nem sempre preparados para desenvolvê-lo plenamente e a situação acima descrita exemplifica problemas recorrentes no desenvolvimento turístico pautado em ações de caráter empirista:

  • desconhecimento das demandas de lazer de residentes e turistas; 
  • desconhecimento das dinâmicas de lazer e turísticas locais; 
  • desconhecimento dos dados relativos ao desenvolvimento da atividade turística no local e na região; 
  • desconhecimento de praticas de planejamento e gestão que integrem instituições vinculadas à diferentes segmentos de atividades (que buscam atender complexidades e particularidades de cada área); 
  • expectativa de que profissionais contratados, sem profissionalização para atuação na área do turismo, apresentem ainda competência multifuncional – demanda-se, via de regra, que estes profissionais atuem exemplarmente, sem considerar sua sobrecarga de responsabilidades e atribuições; 
  • a falsa percepção de que, por ter vivido alguma(s) ou várias experiências turísticas, o empresário ou profissional está habilitado à oferecer produtos e serviços turísticos, ignorando toda a complexidade e peculiaridade desta prática interdisciplinar, multisetorial e sazonal (basta ser educado, saber sustentar uma conversa, saber vender/convencer e ter uma vocação para “receber bem”); 
  • a esperança de que o leque de conhecimentos informalmente adquiridos no cotidiano ou em viagens, pelos trabalhadores em instituições dedicadas ao Turismo, dota-os – sem exceção – de amplo repertório cultural, necessário à oferta ou venda de produtos e serviços turísticos; 
  • o preconceito de que a pessoa que viaja, está em mobilidade e/ou vive em mobilidade tem dinheiro de sobra/é “afortunada” e que é incapaz de ponderar a relação entre custo e preço, assim como deve pagar um preço diferenciado por estar em situação de turismo (sob essa perspectiva, há um alinhamento com as reflexões propostas por Clara Malbos na Enquête thématique n˚ 2 – “Le don en contexte de crise sanitaire et sociale”).

Na perspectiva do senso comum, contudo, não há clareza de que a oferta de serviços turísticos ou com grande envolvimento com a atividade turística demandam a atuação de profissionais, especificamente formados para o enfrentamento das complexidades e singularidades do Turismo. 

Mas, em linhas gerais, essa formação especializada, desenvolve habilidades e competências que permitem a análise e atendimento de demandas complexas expressas pelos turistas, incluindo-se a previsão de problemas, direta e indiretamente vinculados às atividades turísticas. Do mesmo modo, prepara profissionais para reconhecer o caráter complexo e interdependente das atividades que envolvem a oferta turística, bem como para oferecer respostas sinérgicas às questões e problemas surgidos em seu desenvolvimento (planejamento, gestão, avaliação, oferta de serviços, vendas de produtos etc.). 

Enfim, forma profissionais conscientes de que o turista é um ser humano que descobre-se e faz-se como sujeito e cidadão enquanto viaja, consciente e inconscientemente, em diferentes situações de mobilidade e que, estas descobertas, podem desenrolar-se, inclusive, pela vivência de situações problemáticas ou delicadas. Para tratar as demandas destes turistas, que reservaram tempo, pouparam economias, planejaram com alguma antecedência suas experiências e talvez a realização de alguns sonhos, é preciso ser mais do que um “trabalhador educado e que sabe receber bem”! 

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