Versão em português da Enquête thématique n˚ 9, « Mobilidades regionais » , Maria Helena, Brasil/França

Na enquete thématique n. 8 registrei uma síntese das informações relativas às atividades de lazer e de turismo no distrito de Somail, que integra a Região Turística « La Narbonnaise Surprenante Méditerranée ». Boa parte das informações descritas e analisadas são referentes ao grupo de visitantes que utiliza como principal meio de locomoção, o veículo de passeio individual. É explícita a estreita vinculação, ou mesmo dependência, que temos em relação a esse tipo de veículo, tanto em termos de mobilidade quanto em termos de experiências de lazer e/ou de turismo. 

Nas últimas décadas, os deslocamentos de lazer tem passado por ampla diversificação, com o aumento do uso das bicicletas, das embarcações, dos camping-cars, do crescimento das viagens de lazer por meio de caminhadas e mesmo do transporte aéreo, cada vez mais utilizado para viagens de curtas e grandes distâncias. Contudo, a maior parte dos visitantes e turistas que anima o desenvolvimento turístico de Le Somail, fora dos períodos de temporada de férias (alta temporada turística), ainda desloca-se, predominantemente, com uso de veículos de passeio individual. 

Um fato que contribui não apenas para essa « dependência », mas também para a redução das possibilidades de combinação de distintas formas de mobilidades, em experiências de lazer e/ou de turismo: a pouca disponibilidade de transporte público coletivo, sobretudo em períodos de final de semana e feriados.

Integração entre modais

Tenho observado em diferentes destinos turísticos e em diferentes países, as limitações colocadas aos deslocamentos de lazer, em termos de mobilidade. É muito comum haver pouca diversidade na oferta de meios de mobilidade, sobretudo de transporte público coletivo, com horários diversificados e regulares, entre diferentes cidades/destinos. Outra questão importante, para adentrar o interior das regiões – visitar espaços rurais ou os pequenos vilarejos um pouco mais distantes da « grande » cidade: o meio de transporte público/coletivo oferecido, com mais recorrência, é o ônibus.

A oferta reduzida em termos da diversidade de horários, de regularidade e do número de veículos impõe diferentes limitações ao desenvolvimento do lazer e do turismo regional e, inclusive, entre destinos localizados a menos de 100 km, distância possível de ser superada em um dia de visitação. Entre estas limitações estão: 

  1. os visitantes conseguem chegar no destino, mas não conseguem retornar no mesmo dia para seu vilarejo/cidade de origem; 
  2. quando conseguem chegar, diversas vezes não dispõem de muitas horas livres no destino;
  3. possuem pouca liberdade de escolha tanto de horários de ida quanto de volta; 
  4. os pontos de embarque e desembarque « próximos » às residências de habitantes em áreas rurais, frequentemente, requerem uma longa caminhada como primeira parte do trajeto da mobilidade de lazer; 
  5. os custos individuais de transporte são elevados; entre outros.

A depender da região turística em análise, o público visitante não dispõe de renda mensal elevada e o comportamento de lazer predominante é de visitas em vilarejos/cidades da região ou de regiões próximas, com permanências que oscilam entre algumas horas ou de no máximo um dia. As limitações acima apontadas, como é possível observar, acrescentam dificuldades a realização de práticas de lazer ativas e em espaços públicos de lazer de cidades distintas daquela de residência; a depender da combinação entre essas limitações, os desejos de “mobilidade”, de lazer, de turismo podem ser sufocados por questões estruturais.

Le Somail: uma pérola em uma região turística 

Le Somail e sua dinâmica de visitação exemplifica uma parte das limitações que o público de lazer encontra, quando decide desfrutar de suas horas livres em um destino turístico de sua região de residência ou de regiões próximas. De outro lado, do ponto de vista da oferta, estas limitações também colocam questões ao desenvolvimento do turismo regional.

O acesso à Le Somail, por meio do uso de transporte público coletivo é feito exclusivamente a partir de Narbonne, a maior cidade da região « La Narbonnaise Surprenante Méditerranée ». Um passeio em Le Somail, de apenas um dia, supõe uma visita exclusivamente no período da tarde. Isto porque, o primeiro horário de deslocamento disponível em ônibus de Narbonne à Le Somail, em pleno período de férias escolares (portanto, de alta temporada turística), é às 12h14min. Felizmente, para o público de lazer regional, é possível um deslocamento de ida e volta no mesmo dia, mas o retorno à Narbonne deve ser feito em um dos dois horários disponíveis: 13h21min ou 18h21min. Dessa forma, uma visita com duração superior à seis horas supõe que esse visitante assuma a condição de turista e pernoite em Le Somail ou em outros vilarejos/cidades próximas.

De outro lado, o público de visitantes e residentes da cidade de Béziers ou dos vilarejos e cidades vizinhas, que assim como Narbonne integram a Região da Occitanie, encontra maiores dificuldades de deslocamento para Le Somail. Béziers, apesar de localizar-se a uma distância de apenas 36km de Narbonne, compõe uma outra região turística, denominada « Béziers Méditerranée », com uma rede de transporte público coletivo em ônibus desconectada da rede de Narbonne. Sendo assim, o caminho mais simples e rápido de deslocamento entre Béziers e Narbonne-Le Somail compreenderia dois trechos de deslocamento: o primeiro de trem de Béziers à Narbonne e o segundo, de ônibus, de Narbonne à Le Somail. Como se pode notar, as várias horas envolvidas no deslocamento entre estas duas regiões turísticas da Occitanie, possivelmente, inviabilizaria um crescimento do fluxo turístico inter-regional, do ponto de vista turístico (entre « La Narbonnaise Surprenante Méditerranée » e « Béziers Méditerranée »), assim como do fortalecimento do turismo intra-regional, considerando a região da Occitanie.

Esse é um dos muitos casos e causas das limitações colocadas ao desenvolvimento regional, no âmbito do lazer e do turismo. Narbonne é uma cidade que possui uma estação de trem, conectada com toda a malha de transporte ferroviário da França, mas como se pode notar, o crescimento, fortalecimento e consolidação do turismo regional está estreitamente vinculado às mobilidades com uso de meios de transporte individuais.

Parte das limitações são superadas por visitantes e viajantes que optam pelo uso de formas de mobilidades alternativas, mas cabe registrar que esse grupo constitui um público reduzido e que os destinos turísticos, para desenvolverem-se de forma sustentável, dependem de dinâmicas de lazer mais regulares e robustas; portanto, não podem depender exclusivamente deste público.

Viajando em duas rodas…
Fonte: acervo da autora (jun. 2020).

Os treze meios de hospedagem, os seis restaurantes, as quatro embarcações de cruzeiros comentados, as seis lojas destinadas ao comércio de produtos locais para visitantes/turistas, que empregam profissionais do distrito e de cidades próximas, são altamente dependentes da renda dos visitantes para geração de receitas. A manutenção de suas atividades, assim como da oferta de uma dinâmica de lazer que seja atrativa ao turismo depende da presença de um grupo diversificado de visitantes. Facilitar seu acesso, portanto, torna-se uma ação importante para o desenvolvimento e fortalecimento dos empreendedores, dos destinos e do turismo, em âmbito regional.

Le Somail no mapa do desenvolvimento turístico
Fonte: acervo da autora (jun. 2020).

Do ponto de vista do indivíduo em mobilidade, uma questão coloca-se como curiosa: nós questionamos pouco o fato de assumirmos, individualmente, o custo de mobilidade (financeiro, temporal e social). Nas discussões a respeito da ampliação da oferta de transporte público coletivo, ouve-se com mais recorrência argumentos pautados na necessária redução da poluição urbana e da sustentabilidade do planeta – argumentos e causas absolutamente válidas, mas não exclusivas; eles parecem ofuscar as reflexões a respeito da assunção individual do custo de uma demanda social cotidiana e necessária que, ao fim e ao cabo, impactam também o turismo.

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