Versão em português da Enquête thématique n˚ 11, « Os eventos na experiência turística » , Maria Helena, Brasil/França

A flexibilização das restrições destinadas ao controle da pandemia COVID-19 culminou, com o período das férias escolares, no aumento do fluxo turístico em diferentes cidades francesas.

O fato das cidades no entorno de Le Somail, assim como da Região Narbonnaise terem registrado poucos casos de contaminação pelo coronavírus (Sars-CoV-2), favoreceu a chegada de um número crescente de visitantes, aparentemente despreocupados com a crise sanitária (majoritariamente sem máscaras), desde meados de julho. É certo que esse fluxo de mobilidade de lazer era ansiado pelos empreendedores locais, mas sua presença não se faz notar sem preocupações: de um lado, com o reforço das medidas de segurança sanitária em voga (álcool gel, máscaras em ambientes fechados, distanciamento físico entre pessoas); de outro, com tentativas de fomento do bem estar social e reversão do quadro de inquietação e crise econômica.

Museus e castelos reabertos, eventos e exposições retomadas, praias repletas de turistas, canais dia a dia com mais trânsito de embarcações de locação e estabelecimentos de alimentos e bebidas empenhados na busca por soluções, que garantam o distanciamento social em seus estabelecimentos.

Celebrações, episódios e Eventos

No vilarejo de Le Somail, o desejo de superar os desconfortos causados pela pandemia foi celebrado, por meio de iniciativa da instituição pública responsável pelo turismo, o primeiro grande evento público do verão: « 24˚ Festival Convivencia – Itinérance musicale sur les ondes du Canal du Midi ».

« Ces longues semaines confinées en fond de cale nous ont bien remués (de la houle sur le canal ? ). Elles nous ont aussi obligés à ralentir, à (re)penser nos pratiques et à (re)interroger notre action. […] Si l’urgence est de contenir la pandémie, il nous faut aussi imaginer l’après. Un après bouleversé, différent où la culture, selon nous, tient un rôle majeur pour (re)tisser du lien social et renouer avec une convivialité de proximité. 

Parce que Convivencia est avant tout une expérience humaine, artistique, patrimoniale qui va au-delà du simple concert sur les berges du canal du Midi, nous voulons agir et proposer un événement réinventé qui s’adapte aux contraintes imposées par le contexte sanitaire » (ASSOCIATION CONVIVENCIA, 2020).

O evento, com transmissão radiofônica, serviço de restauração e apresentação musical, objetivava não apenas fomentar a convivência social dos residentes do vilarejo e região, mas também abria portas para integração dos visitantes/ turistas e, em alguma medida, celebrava a possibilidade de uma temporada de verão e de férias.

« 24˚ Festival Convivência »
Fonte: acervo pessoal da autora (jul. 2020).

A área usualmente utilizada para estacionamento de veículos do pequeno vilarejo desempenha um papel multifuncional: às margens do Canal do Midi, abriga a residência temporária dos camping-cars, assim como as refeições, cafés, os jogos de mesa e as conversas entre seus proprietários; converte-se em espaço de missa durante a pandemia, em espaço de lazer e de eventos, como o « 24˚ Festival Convivencia ». 

Missa campal
Fonte: acervo pessoal da autora (jun. 2020).

Às vésperas de agosto, os deuses pareciam não querer colaborar com tão esperançosa iniciativa. Poucas horas antes do início do evento, ventos entre 20 et 39 nós (Knots) e nuvens carregadas começaram a se aproximar e logo invadiram o céu. Nessa região com pouco registro de pluviosidade, sobretudo no verão, parecia uma afronta às iniciativas de socialização; mas felizmente, o mau tempo não passou de uma ameaça e o projeto pode ser executado.

Aproximação do cumulus nimbus
Fonte: acervo pessoal da autora (ago. 2020).

Apesar dos eventos comporem o quadro de iniciativas bem marcadas dos projetos de desenvolvimento urbano e turístico, sobretudo vinculados ao entretenimento urbano, « 24˚ Festival Convivência » e seu jantar, operando como âncora para criação de um espaço de encontro, convivência social, de reconexão dos laços sociais e de pertencimento, também oferecia sua contribuição para qualificação de uma temporada turística leve e segura. Zonas de coexistências confortáveis e de relações seguras, publicamente estruturadas, lastreavam a conciliação do descanso, à experimentação cultural, fruição da paisagem, possibilidades de interação, assim como conexão com a cidade e suas dinâmicas urbanas de lazer.

Caminhavam pois na contramão do consumo cultural; a experiência comodificada e predeterminada de massa, resultante do empacotamento de destinos turísticos e da promoção baseada no image making, não cumpriu o papel de máscara das experiências de lazer no « 24˚ Festival Convivencia »,  apesar do uso do patrimônio cultural material como ambiência.

Esse evento, atividade social de celebração que implica o deslocamento de pessoas para um lugar específico e em situação excepcional – no sentido de um acontecimento episódico -, não cumpriria o caráter de evento que tenciona nossa inserção, nosso lugar na história e a própria construção da história, evocado por Schwarcz.

Estacionamento e tempo livre: espaço multifuncional
Fonte: acervo pessoal da autora (ago. 2020).

O comportamento passivo não estava no horizonte do evento; « a fugacidade, o efêmero e os elementos voyeurísticos do olhar do turista » (WEARING; FOLEY, 2017, p. 101), presente nas caminhadas dos visitantes em áreas patrimoniais salvaguardadas, foram reposicionadas. Convidava-se residentes e visitantes/turistas à interação, uma estreita aproximação de práticas cidadãs, pela via do lazer de caráter sociocultural (KARA-JOSÉ, 2007; WEARING, FOLEY, 2017).

Os visitantes/turistas que regularmente caminham pelas ruas de maior frequentação turística, apesar do incômodo de não sabermos, concretamente, como essas ações aparentemente despretensiosas – durante sua execução – alçam a posição de “uso cultural” do patrimônio e do espaço urbano,  estão à espreita da ampliação de seus “[…] sensos emocional, físico, intelectual e talvez espiritual” (O’DELL, 2007; STICKDORN, FRISCHHUT, 2012 apud WEARING, FOLEY, 2017, p. 104).

Nota-se que há comportamentos característicos do caminhar romântico e da contemplação da paisagem, estimulados desde o século XIX, mas há também a defesa do caminhar como exercício físico, como aventura, saúde espiritual e reflexão (THOREAU, 1862 apud GIUCCI, 2017); ou ainda, como uma forma de viver o corpo e de reencontro com si mesmo, mediante uma abertura para o mundo que convoca os sentidos (audição, visão, tato, respiração) e re-encantamento do tempo e do espaço (LE BRETON, 2011 apud GIUCCI, 2017).

Reencontro, re-encantamento…
Fonte: acervo pessoal da autora (ago. 2020).

A celebração do patrimônio e os Eventos

Se em um dia o vento forte e persistente sombreou o céu com as nuvens que atraiu e colocou em risco a realização do evento em Le Somail, no outro, segundo uma profissional que trabalha no parque do vilarejo  de oleiros Amphoralis, equipamento cultural da cidade vizinha, espantou turistas das praias e, consequentemente, os atraiu para o parque, museu e sítio arqueológico.

Amphoralis
Fonte: acervo pessoal da autora (ago. 2020).

Localizado em Sallèles d’Aude, Amphoralis, recebeu fluxo regular e crescente de visitantes, no final de semana com ventos entre 20 e 39 nós, majoritariamente franceses, de todas as faixas etárias. E na esteira do uso dos eventos para dinamização de sua frequentação, desde meados de julho oferta uma agenda de encontros e eventos, em diferentes períodos do dia, como parte de seu calendário de verão e de férias.

Estes eventos ancorados na interpretação da história e do patrimônio histórico e cultural galo-romano, desenvolvido com base em programação lúdica e variada, instiga diferentes formas de aproximação e apreensão histórico-patrimonial, bem como a visitação (o retorno frequente) dos residentes da cidade e da região. 

Em uma perspectiva mais geral, as instituições públicas e privadas, equipamentos culturais e empreendimentos privados, inclusive ligados ao turismo, empenham-se na distribuição de materiais promocionais e informativos a respeito das atividades de lazer, dos eventos e dos equipamentos de lazer e turismo, nos destinos e na região « Grand Narbonne Méditerranée ». As equipes de profissionais dos centros de informação turística e de equipamentos culturais, por sua vez, isoladamente ou em parceria com outras instituições, envolvem-se tanto na oferta quanto na gestão de atividades e experiências fortemente ancoradas na interpretação da história e patrimônio cultural local e regional. A despeito de estimularem reflexões relacionadas às histórias, identidades, alteridades e a (re-)elaboração de valores socioculturais, neste momento de tentativas de retorno às atividades pós-pandemia, o fazem pautados na retomada agendas habituais.

Apelos à descoberta pelo Lazer e Turismo
Fonte: acervo pessoal da autora (jul. 2020).

Embora a pandemia COVID-19 ocupe o lugar de evento que nos incita diversos questionamentos, as mudanças estruturais nas práticas socioculturais e políticas, assim como em dinâmicas que as suportam – « o novo normal » – , fazem ainda parte do porvir.

Referências

ASSOCIATION CONVIVENCIA. 24˚ Festival Convivência – Itinérance musicale sur les ondes du Canal du Midi. France, Ramonville Saint-Agne, 2020. Disponível em: <https://convivencia.eu>. Acesso em: 01 ago. 2020.

GIUCCI, G. Caminar. In: GIUCCI, G.; JIRÓN, P. SINGH, D. Z. (Eds.). Términos clave para los estudios de movilidad en América Latina. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Biblos, 2017. p. 49-56.

KARA-JOSÉ, B. Políticas culturais e negócios urbanos: a instrumentalização da cultura na revitalização do Centro de São Paulo 1995-2000. São Paulo: Annablume: 2007.

MKONO, Muchazondida. The reflexive tourist. 2016. Annals of Tourism Research, 57, p. 206-219.

WEARING, Stephen; FOLEY, Carmel. 2018. Understanding the tourist experience of cities. Annals of Tourism Research, 65, p. 97-107.

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