Versão em português da Enquête thématique n˚ 13, Uh la la! Haverá turismo no “novo normal”!, Maria Helena, Brasil/França

O recente e crescente aumento dos contágios começa a requerer mais atenção de todos –  autoridades, cientistas, empresários, residentes, viajantes e demais integrantes da sociedade civil. A tentativa de retomada das atividades laborais e comerciais nas cidades não se fez sem o aumento dos contágios e aumento das preocupações.

Circula nos textos dos meios de comunicação de massa uma alcunha que qualifica estes tempos – tanto o contexto quanto a forma de vida social decorrente das adaptações da pandemia: vivemos o “novo normal”. Cuidados com higiene pessoal e dos ambientes multiplicados, distanciamento físico, aumento das atividades obrigatórias – formação acadêmica e trabalho – em sistema de home-office, expressões faciais encobertas por máscaras, sentimentos e emoções acentuadas, talvez mesmo, ao mesmo tempo, subvalorizadas.

O reestabelecimento do turismo tem ocorrido nesse período de intervalo entre momentos críticos da pandemia e foi bastante afetado por seus desdobramentos, sobretudo em razão de que o vírus continua a circular, vigorosamente. Vivemos, talvez, como disse uma amiga cientista, um período de “pré-história da pandemia” (LESSINGER, 2020) – logicamente uma brincadeira com periodizações de tempo -; a maior parte das iniciativas globalmente desenvolvidas concentram-se na mitigação da propagação do SRA-CoV-2 e dos impactados da COVID-19.  

Apesar da crença de que a pandemia está acabando, por parte de cidadãos em diferentes países em momento de relaxamento do lockdown ou mesmo que não adotaram medidas restritivas duras de circulação, muitos cientistas vinculados à diferentes grupos de pesquisa ao redor do mundo, sobretudo epidemiologistas, alertam que o “novo normal” pode tornar-se um imperativo cotidiano e parte da realidade até 2025 (SCUDELLARI, 2020).

Embora a pandemia desenvolva-se distintamente de lugar para lugar, tem sido observado que a maioria das pessoas tem adotado comportamentos cautelosos e que a adoção de novos comportamentos em espaços públicos e privados pode ser crucial na redução da transmissão do coronavírus e adoecimento das sociedades (NETO, 2020 apud SCUDELLARI, 2020).

Em meio a este complexo e delicado contexto, as cidades reafirmam sua importância na vida social e sujeitos históricos oriundos de diferentes cidades ensaiam sua reintegração nos espaços nacional, regional e talvez global, na condição de turista. São os espaços públicos das cidades que, em um primeiro momento, se colocam como alternativa ao ambiente fechado, privado, de limitação dos contatos sociais; nela nos redescobrimos como seres sociais. O desafio de uma necessária revisão das relações entre espaço urbano, sistemas ecológicos e conservação ambiental, inaugurado em fins da década de 1960 e há muito tempo sinalizado por cientistas de diferentes áreas de conhecimento, assim como por cidadãos ligados à diferentes movimentos ambientalistas, é reiterado no “novo normal”, com novos argumentos e descobertas científicas (TOLLEFSON, 2020).

Alta temporada!
Fonte: desenvolvimento próprio (jul./ago. 2020).

Turismo no “novo normal” 

A gradativa retomada das atividades laborais e comerciais foi sucedida, nas vésperas do início do verão e das férias escolares, pelas viagens turísticas. É possível que a importância dessa experiência tão apreciada por muitas pessoas e parte da vida cotidiana de uma parcela cada vez maior das sociedades tenha sido reconhecida ou ainda, supervalorizada, durante o lockdown, ocasionando alterações na ordem de prioridades a serem satisfeitas, com o fim das restrições de circulação. Há tempos a explicação oferecida por Maslown para a satisfação das necessidades humanas vem sendo objeto de revisão e com a pandemia, a decisão de viajar no contexto do “novo normal” pode iluminar ou explicitar a presença de variáveis distintas das recorrentemente observadas, nas dinâmicas do turismo.

Em Lyon, considerando as observações sistemáticas de campo realizadas no espaços com mais expressivo uso turístico da cidade – sobretudo o perímetro salvaguardado como Patrimônio Mundial da Humanidade – a retomada das viagens de lazer e turismo começou com maior força em julho deste ano, atingindo um pico na segunda e terceira semanas de agosto. 

Circulação do SRAS-CoV-2
Fonte:  Gouvernement Français; Le Monde (27 août. 2020).

Embora o aumento do número de turistas tenha se dado em simultâneo ao aumento do número de contágios pelo SRA-CoV-2, com a cidade de Lyon passando de alerta laranja para situação de vigilância extrema, uma quantidade considerável de turistas escolheu a cidade como seu destino de férias. Estima-se que tenha havido uma redução de 50% do fluxo turístico de Lyon, face ao fluxo no mesmo período em 2019. Mesmo assim, foi possível observar durante a temporada turística de verão e período de férias (de julho a fim de agosto), uma constante circulação dos turistas na cidade, sobretudo nos espaços que concentram atrativos turísticos. 

Lyon é uma cidade de porte médio na França, com aproximadamente 510 mil habitantes. O aeroporto Lyon-Saint-Exupéry recebeu aproximadamente 11 milhões de viajantes e os hotéis, no ano de 2019, registraram 5 milhões de pernoites. Vejam bem que mesmo com os impactos da pandemia, o fluxo registrado está longe de ser inexpressivo!

Os passeios reservados para pedestres – no eixo e arredores da Rue Victor Hugo, Rue de la République, Rue Désirée -, bem como o espaço urbano na base da colina do Fourvière sediaram os deslocamentos dos aparentemente despretensiosos turistas, alternando momentos de baixa e elevada concentração de pessoas ao longo dos períodos (manhã, tarde, entardecer, noite e madrugada), dias e semanas. Estes passeios de pedestres nas imediações da Rue Victor Hugo, Rue de la République e Rue Désirée, que abrigam uma oferta concentrada de lojas e restaurantes (especialmente no entorno da Rue Mercière) mesclaram com mais regularidade residentes de Lyon e turistas, sobretudo nos horários de fim de expediente de trabalho e finais de semana. Já as ruas comerciais da base da colina do Fourvière foram majoritariamente frequentadas pelos turistas.

O verão chegou! E os turistas também!
Fonte: desenvolvimento próprio (jul./ago. 2020).

Os eventos públicos que marcam a temporada de férias de verão foram suspensos em razão da pandemia e controles estritos de circulação no interior dos espaços privados foram adotados; era comum ver filas de espera nas portas das lojas, mesmo de grandes lojas de departamento. Os estabelecimentos de alimentos e bebidas ganharam as ruas – o espaço privado estendeu-se, incorporando o já escasso espaço público como parte de seus domínios e dinâmicas.

Caçadores de experiências, coletores de objetos de memórias

Mas o que fazem os sujeitos caçadores de experiências e coletores de souvenirs, informações e imagens, capturadas por câmeras fotográficas presentes em diferentes dispositivos?

Caminham, caminham, caminham e fazem algumas paradas, para fotos, observações, conversas, descansos, compras, refeições, refrescar-se com a ingestão de bebidas e muito sorvete!

Os ritmos destas caminhadas variam; clima, topografia, faixa etária, curiosidade, conhecimento prévio do lugar, características do pavimento da área urbana são algumas das variáveis que interferem no ritmo. É possível reconhecer uma parte dos usuários que estão na condição de turistas pelo ritmo de seu deslocamento. Outra curiosidade, a rigidez do corpo e de seus movimentos fala um pouco da vida dos usuários da urbe.

A ausência de mobiliário urbano que permita o descanso dos usuários da cidade, em lugares confortáveis – abrigados do sol forte do verão ou da chuva – e aptos a manutenção do distanciamento físico, em suas breves pausas nas caminhadas diárias, limita situações de distanciamento físico. De outro lado, incentiva apropriações inusitadas do espaço e mobiliário urbano. Destas observações resultou uma interrogação: como é possível uma apreensão do patrimônio, em maior profundidade, sem haver espaço adequado para observar e refletir? Os assentos abundantes de bares e restaurantes, embora instalados nas proximidades ou faces do patrimônio arquitetônico, certamente, imprimem ritmos e contornos que interferem na apreensão livre e lúdica do patrimônio, de suas referências e de suas memórias…

Estratégias de apreensão do espaço urbano
Fonte: desenvolvimento próprio (jul./ago. 2020).

As estreitas ruas da “Lyon medieval e renascentista”, na base da colina do Fourvière não espantaram os turistas da cidade patrimonial, nem mesmo dos mistérios das “passagens secretas” (traboules); em diferentes momentos este espaço urbano esteve densamente ocupado por grupos de transeuntes. E em contrapartida, os museus praticamente vazios…

Mas, há uma boa nova do “novo normal” em tempos pandêmicos: em pari passu ao aumento do número de turistas na cidade, da diversificação do público (presença crescente de maior número de estrangeiros) e da reclassificação da situação de alerta da pandemia (de situação controlada, para alerta laranja e mais recentemente, alerta vermelho), o número de turistas e usuários portando máscaras foi gradativa e espontaneamente aumentando. Em princípio observava-se que os grupo de pessoas idosas eram os que com mais frequência adotavam esse comportamento, público inexpressivo para um cidade que tem seu fluxo turístico marcado pela presença de jovens e adultos. À medida que o tempo foi avançando e constatado o aumento dos contágios, em agosto e mesmo antes da obrigatoriedade de uso da máscara em espaço público (oficializada na semana do dia 24 de agosto), um número mais expressivo de visitantes passou a usá-la, como esperado, constantemente. 

A máscara e seus usos imprevistos
Fonte: desenvolvimento próprio (jul./ago. 2020).

Houve até quem se esquecesse de retirá-la para fazer aquela foto especial da viagem turística! Serão indiscutivelmente memórias do “novo normal” nas mobilidades e experiências turísticas! 

Referências

LE MONDE. Progression « exponentielle » de l’épidémie en France métropolitaine. Le Monde, Paris, 28 août, 2020. Coronavírus et pandémie de COVID-19. Disponible à: <https://www.lemonde.fr/planete/article/2020/08/28/coronavirus-paris-totalement-masque-plus-de-180-000-morts-aux-etats-unis_6050159_3244.html>. Accès en: 28 août 2020. 

POPOVICH, N; SANGER-KATZ, M. The world is still far from herd immunity for coronavirus. The New York Times, Manhattan-New York, 28 mai 2020. Disponible à: <https://www.nytimes.com/interactive/2020/05/28/upshot/coronavirus-herd-immunity.html>. Accès en: 26 août 2020.

SCUDELLARI, M. How the pandemic might play out in 2021 and beyond. Nature, 584, 22-25, 5 août 2020.

TOLLEFSON, J. Why deforestation and extinctions make pandemics more likely. Nature, 584, 175-176, 7 août 2020.

YONG, E. Immunology is where goes to die. The Atlantic, Washington, 5 août 2020. Health. Disponible à: <https://www.theatlantic.com/health/archive/2020/08/covid-19-immunity-is-the-pandemics-central-mystery/614956/>. Accès en: 26 août 2020.

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