Versão em português da Enquête thématique n˚ 15, “Cotidianos nas cidades, dinâmicas no turismo?”, Maria Helena, Brasil/França

Quase toda gente pensa que a vida segue um curso natural; que o dia a dia é dotado de uma regularidade externamente determinada e que a vontade pessoal não é capaz de imprimir transformações nessa regularidade. Mas, na verdade, o cotidiano não é tão regular assim e cada um esforça-se muito para fazer com que os dias, semanas, meses e anos tenham essa dimensão imaterial, que permite uma percepção de regularidade, de naturalidade.

Prova disso está nos estudos basilares de Goffman (2015), Wolf (1994), Reguillo (2000) e Vega (2000). A vida cotidiana, segundo proposições teóricas desses autores, desenvolve-se em um espaço historicamente constituído, socialmente legitimado por práticas organizadas, que se converte em ambiente propício à reprodução social, dado que, por meio da comunicação coletiva, elabora-se uma inteligibilidade de sentido subjetivo das práticas cotidianas. Nesse espaço desenvolvem-se, ininterruptamente, processos de atribuição de valor, que concorrem para a definição do “mundo da vida cotidiana”, bem como para elaboração dos conhecimentos de sentido comum. Inteligibilidade, uniformidade, coerência e influência suportam a capacidade de reconhecer, descrever, classificar, categorizar e fixar propriedades racionais, que se comportam como as premissas organizativas definidas por Goffman (2015) como “frame ». Tais propriedades racionais embasam a ação dos agentes sociais, ou seja, o planejamento, a reprodução de ações e a concretização de suas demandas pessoais e coletivas. 

Nas experiências de viagem percebe-se, talvez com mais clareza, que o suceder dos momentos e dias pode ser, de uma hora para outra, alterado. Além disso, percebe-se que essas experiências são fruto de saberes, emoções, sensações, relações, princípios, valores, um sem fim de processos racionais (conscientes e inconscientes) e escolhas – nossas, feitas por outras pessoas ou mais frequentemente, por ambos. 

A vida pessoal e social é ainda caracterizada por alguns outros componentes, tais como: liberdade, demandas pessoais, demandas externas, sociabilidades, tensões, conflitos, hábitos, costumes entre outros. Ninguém é plenamente livre, embora alguns tenham essa impressão. A liberdade é maior em nosso interior (o “eu comigo”, o âmbito da consciência), do que na vida em sociedade, âmbito em que a liberdade é impactada por fatores externos, independentes de nossa vontade pessoal (ARENDT, 2009). 

Apesar dos recentes usos feitos dos rótulos coliving, coworking, cocriação e outros “co”…, em propostas renovadas de produtos e serviços, a vida em comunidade é muito antiga na vida social humana, assim como bastante complexa. O crescente uso desses rótulos talvez aponte para um desejo, por parte de diferentes grupos sociais, de uma vida cotidiana em comunidade. Quanto maior a escala e diversidade presente no interior dessa comunidade, mais complexas são as relações, mais tensões, disputas e conflitos e, também, mais refinados passam a ser os processos de negociação e de decisão.

Liberdades nas dinâmicas de turismo

Quando uma pessoa decide viajar, a despeito do anseio por maior liberdade, outras questões limitadoras surgem. Ela adentrará a vida cotidiana de outros grupos sociais e poderá converter-se em elemento perturbador desses grupos e/ou dos espaços que eles habitam. 

Além disso, a decisão de viver em mobilidade pelo mundo, certamente, fará esse viajante notar as restrições socialmente estruturadas para a realização da plena liberdade ambicionada. Começamos com o tempo limite para permanecer em um país distinto de seu país de origem, passando pelas formas de pagamento para contratação de serviços, os muitos chips de empresas de comunicação que ele terá que adquirir, a constante demanda: “qual é o seu endereço residencial?” (para pessoas que vivem à bordo de um barco a vela, por exemplo, essa é uma demanda insana!) entre outros. 

Todos querem ser respeitados em um grupo social, mas parte do que se reconhece como respeito, na prática, tem relação com domínio dos códigos de vestimenta e comportamento, fluência na língua, reconhecimento de valores e vários outros itens que compõem a vida social e, sobretudo, comunitária. Se você estiver constantemente em mobilidade, você poderá experimentar um pouco do que faz a vida de um grupo uma vida comunitária, mas possivelmente, a maioria das pessoas, não viverá essa vida comunitária, com todas as nuances que os enraizamentos e as relações de pertencimento agregam. É provável que você não saiba o que aquele olhar, aquele estalido feito com a boca, aquele gesto ou expressão significa para o grupo e, mais especificamente, para o seu interlocutor. Relações de confiança, cumplicidade, parceria, ajuda mútua e outras de estreitamento de laços ocorrerão, mas existem outras que caracterizam a vida em comunidade, para cada comunidade. Ainda, cada uma dessas relações, exclusivamente, não alça uma pessoa “de fora” à posição de experiência da vida comunitária em sua integralidade, mesmo que ela pareça uma experiência singular, com toda “a dor e a delícia de ser o que é” – parafraseando Caetano Veloso.

Estímulo ao encantamento… 
Fonte: desenvolvimento próprio (ago. 2020).

Como é possível perceber, a vida é mais dinâmica do que se imagina e as tensões entre o que é de interesse particular e a vida sociocultural, econômica e política que se passa diante da vida de cada um, são mais recorrentes do que se pensa. Os aspectos socioculturais dão o tom para uma parte das dinâmicas que se desenrolam, dia a dia, nas cidades que se tornaram destinos turísticos. Contudo, aspectos produtivos, econômicos, formação acadêmica, participação social e política são outros elementos que qualificam as experiências de lazer da população residente e, seguramente, foram estruturadores dos espaços e equipamentos atualmente eleitos para vivência de experiências turísticas singulares.

Dinâmicas urbanas, sociais e turísticas : “tudo junto e misturado”

Quando a dinâmica do turismo passa ao centro da discussão, o raciocínio linear é de que a situação do turismo muda, em um dado destino, a depender do período do ano – mais especificamente, das férias escolares (a sazonalidade). Além disso, o perfil dos visitantes – idade, escolaridade e renda – constitui outra variável frequentemente conjecturada, dada sua importância para os investidores e empreendedores dos segmentos de atividade direta e indiretamente relacionados ao turismo.

Bouchon – Apreciação do patrimônio em grupo
Fonte: desenvolvimento próprio (ago. 2020).

Uma observação sistemática das práticas de turistas em destinos revela outros elementos interessantes para análise, que, em conjunto, impactam visivelmente a dinâmica turística de um destino.

« Olha o sorvete »! 
Fonte: desenvolvimento próprio (jul. 2020).

Alguns destes elementos não são recorrentemente ponderados, quando se discute o desenvolvimento do turismo nas cidades. Eles agregam variáveis aos ajustes e negociações entre grupos sociais.

  • As chegadas de turistas de diferentes países ocorrem em horários variados do dia, em dias diferentes da semana e ainda, em períodos distintos do ano;
  • O perfil socioeconômico (em síntese: idade, renda e formação acadêmica) também varia, a cada momento da semana e do ano; 
  • Em razão do perfil dos turistas, os fluxos destes visitantes nas ruas e bairros da cidade também são alterados; 
  • As demandas do público visitante, os fluxos e usos nos distintos espaços da cidade são modificados ao longo do dia e a depender do período do ano e da realização de algum tipo de evento; 
  • O uso de dispositivos móveis (para fotos, conversas, redação de textos etc.), em meio à caminhada, é variável que impacta o fluxo e o ritmo; 
  • A apreciação do patrimônio, ou seja, a parada para observação, por um indivíduo ou grupo, pode ser uma variável que também altera fluxo e ritmo, a depender da largura da rua, da quantidade de indivíduos e do intervalo de tempo em que esta ocorre;
  • O grupo « turistas » não é uma categoria homogênea; os diferentes grupos de turistas ganham as ruas em horários diferentes, a cada dia; circulam em ritmos distintos; e usam o tempo de formas diversificadas;
  • A alteração da quantidade de tempo de descanso do trabalho em termos semanais e anuais, historicamente, tem alterado as dinâmicas de turismo das cidades e regiões, desde o estabelecimento da consolidação de leis trabalhistas até a mais recente flexibilização e precarização dos contratos de trabalho, ao redor do mundo. No médio e longo prazo essas recentes alterações impactarão, largamente, o desenvolvimento do turismo;
  • A coexistência de visitantes, turistas e residentes nos espaços públicos da cidade – sobretudo nos horários de intervalo e saída do trabalho, assim como nos finais de semana e feriados -, estimula formas distintas de relações sociais e de relações com os espaços; 
  • A abertura e fechamento dos estabelecimentos de alimentos & bebidas variam ao longo da semana – não abrem e fecham no mesmo horário, nos mesmos dias da semana e nas mesmas semanas do ano (notei que, em Lyon, alguns destes permanecem fechados de 1 a 2 semanas, para férias coletivas dos funcionários, em plena temporada turística de verão). E o mesmo ocorre com o comércio, agências de turismo receptivas e emissoras, bem como com uma parte dos meios de hospedagem (em diferentes cidades, vários meios de hospedagem ficam fechados na baixa temporada – situação relevante em destinos litorâneos);
  • A oferta de meios de transporte também é alterada em diferentes horários do dia, em diferentes dias da semana e em diferentes períodos do ano, o que interfere nos deslocamentos dos turistas pela cidade. Com formas alternativas de hospedagem como aquelas ligadas ao consumo colaborativo (ex. Airbnb), que geram a presença dos turistas em bairros não usualmente eleitos para estada, essas alterações nos deslocamentos podem ser relevantes nas dinâmicas turísticas e urbanas;
  • Em razão de promoções e das ofertas de preços na venda de produtos e serviços turísticos, os fluxos se distribuem de maneira distinta no interior das cidades e no espaço turístico regional;
  • As características topográficas do terreno de um destino interferem, consideravelmente, nos fluxos. Os deslocamentos têm relação direta com a oferta de transporte coletivo público, que permite acesso aos espaços/atrativos localizados em maior altitude;
  • A presença de fontes de água, estabelecimentos de alimentos & bebidas, de lojas e o clima são fatores atrativos do público turístico para um dado espaço da cidade, para além dos já consagrados “atrativos turísticos” (equipamentos culturais, mirantes, eventos, parques, feiras etc);
  • Apresentações de artistas de rua são aglutinadores de pessoas, interferem no fluxo e também alteram o ritmo das caminhadas;
  • O deslocamento de pessoas com bicicletas, patinetes, skates, carrinhos de bebê, cadeiras de rodas e bengalas (situações usuais no perímetro salvaguardado), é outra variável que interfere no fluxo e ritmo; 
  • O incentivo às formas alternativas de mobilidade também impacta maneiras de uso, apreciação e relacionamento com a cidade. Amplia, inclusive, a área do espaço urbano usualmente percorrida nas visitas turísticas;
  • A concentração de pessoas é mais uma variável que deve ser considerada, porque tanto atrai (mesmo em tempos de pandemia) quanto repele. Parece que, na maior parte das vezes, “gente gosta de gente e quanto mais gente melhor”! etc….
E « no meio do caminho tinha… », o Tour de France!
Fonte: desenvolvimento próprio (set. 2020).

Em linhas gerais, portanto, é possível observar que o comportamento dos turistas e usuários, políticas de funcionamento dos estabelecimentos, promoções e incentivos econômicos, políticas de gestão urbana, de transportes, de lazeres, cultura e eventos, além das transformações nas relações de trabalho, contém variáveis que impactam fortemente as dinâmicas urbanas, de lazer e turismo, no tempo presente e no futuro. A essas variáveis podem ser adicionadas também dinâmicas internas de funcionamento de diferentes instituições e espaços: quem nunca perdeu preciosas horas de passeio em um destino, porque ficou horas dentro do aeroporto, cumprindo uma agenda de protocolos de desembarque e imigração? O turista perde e a cidade também…

O fato é que não há uma dispersão homogênea dos visitantes pela cidade e a distribuição do público real de turistas não se dá, exclusivamente, em relação direta com os atrativos ofertados. Os fluxos também não percorrem ruas e bairros em velocidade constante e ritmo linear; a distribuição de pontos de alimentação, comércio e espaços de visitação, bem como semáforos, barreiras no espaço urbano, intervalos de chegada de transportes públicos interferem na definição desse ritmo. Ou seja, diferente de como pensam muitos, não são apenas os desejos pessoais que interferem no ritmo das caminhadas e no deslocamento pelo espaço urbano.

As experiências que caracterizam as dinâmicas turísticas e espaços de visitação – inclusive cidades e parques – são, ainda, mediadas por relações de estranhamento, de distanciamento, de alteridade, pelo desenvolvimento de sensibilidades e lampejos de consciência, em diversas situações de insights e desenvolvimento pessoal e coletivo. O sonhado estado de anarquia, para alguns, parece distante de nossas relações e vidas cotidianas. Estratégias e ajustamentos às dinâmicas cotidianas dos espaços em que vivem os grupos sociais, que também ocorrem de maneira espontânea, nem sempre pautam-se pela compreensão de princípios e valores estruturadores da vida social coletiva e comunitária e/ou, ainda, pelas demandas e sentidos sustentados pelo coletivo.

Não é preciso ser turista para perceber isso; eventos e situações-limite como a pandemia do COVID-19 confrontaram as sociedades com as interdependências entre indivíduo-grupo social, demandas individuais x coletivas, ações privadas x públicas, ecologia e sociedade. O equilíbrio da vida coletiva é dinâmico; está intrinsecamente ligado às diferentes variáveis que, em movimento constante, parecem acomodar-se ou sobrepor-se nos espaços e contextos de vida. Convergências e divergências, pontos altos e baixos, tensões e calmarias entre outros, em diferentes momentos e situações, franqueiam a coexistência, os ajustes mútuos e, por ora, sobreposições ou intercalações. O ajuste fino desse equilíbrio, com a garantia da qualidade de vida, assim como da sustentabilidade da vida e de seus ambientes é impossível sem a compreensão de ações, interações, relações de força, movimentos e seus impactos nas permanências dos cotidianos, dos espaços, das culturas, das mobilidades e dos sistemas ecológicos.

Referências

ARENDT, H. 2009. Entre o passado e o futuro. 6. ed. São Paulo: Perspectiva.

GOFFMAN, E. 2015. Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo: Perspectiva.

REGUILLO, Rossana. 2000. La clandestina centralidade de la vida cotidiana. In: La vida cotidiana y su espacio-temporalidade. Barcelona; México: Anthropos Editorial; Centro Regional de Investigaciones Muldisciplinarias. 

VEGA, Emma León. 2000. El tiempo y el espacio en las teorías modernas sobre la cotidianeidad. In: LINDÓN, Alicia (Org.). La vida cotidiana y su espacio-temporalidade. Barcelona; México: Anthropos Editorial; Centro Regional de Investigaciones Muldisciplinarias.

WOLF, Mauro. 1994. Sociologias de la vida cotidiana. Madrid: Ediciones Cátedra. 

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