Versão em português da Enquête thématique n˚ 18, “Longa noite”, Maria Helena, Brasil/França

Esta é a última foto que fiz de pesquisas de campo noturna em Lyon, antes das medidas mais duras do couvre-feu entrarem em vigor. O registro foi feito em um dia peculiar. Um dia após uma silenciosa passeata feita por professores de Lyon, na tarde do ensolarado domingo do dia 18 de outubro, notei uma pixação com caráter de contestação política na praça Bellecour. Como todos os dias, saí cedo para minha habitual caminhada de coleta de dados e no início do trajeto deparei-me com a tal pixação; estava em questão a unidade democrática e tratava-se de um claro revide às declarações e manifestações, tanto oficiais quanto populares, de incomplacência com atos de violência, bem como ultrajes ao pacto social da liberdade no seio da democracia. 

Lugar de contestações 
Fonte : acervo da autora (out. 2020).

Neste momento não pude registrar a pixação e decidi retornar à praça, no fim do dia, para capturar as imagens da mensagem que incitava desintegrações, diante das ausências institucionais e das limitações da sociedade civil no desenvolvimento dos sentidos de comunidade. Optar por não registrá-las de imediato implicaria um risco: o serviço de limpeza pública ser encarregado de, nesse contexto de crises, apagar a mensagem – o que de fato ocorreu antes da manhã seguinte.

A noite desta segunda-feira era o último dia em que lyonnais (habitantes nascidos em Lyon) e residentes poderiam sair às ruas no período da noite, dado que no dia seguinte passaria a vigorar o início da medida de couvre-feu que suspendia a livre circulação nos espaços públicos após às 21h. Engajei-me então em um duplo trabalho: registrar a mensagem comunicada pela pixação e realizar minha última noite de coleta de dados do mês de outubro, voltada aos usos noturnos dos espaços públicos da cidade. Oficialmente, os estudantes e professores franceses estavam em sua primeira semana de férias e desde o sábado Lyon registrava um leve aumento da movimentação de turistas. Saí com o mínimo de pertences possível; um celular para fazer as fotos, documentos de identificação pessoal e algum dinheiro.

Ceguei na praça Bellecour, registrei as imagens que queria e decidi fazer um pequeno percurso ao redor da praça, para coleta de alguns dados. O vento soprava forte; havia poucas pessoas nas ruas e mesmo na praça. Caminhei para uma de suas esquinas e ali parei para anotar algumas informações, voltada para o casario do entorno do Bellecour. Percebi quatro homens jovens, descendentes de imigrantes, dois deles discutindo vigorosamente em francês, enquanto dois outros movimentavam-se incessantemente ao redor da dupla que discutia. Havia uma disputa/contenda em jogo, defendida no solo escarpado da diversidade cultural, empenhada em assentar “novas maneiras de se arraigar” (Canclini, 2016, p. 43). A dupla ocupava  centro de um balé desconcertado, dos agitados movimentos executados por dois outros jovens, que em em um tom superior ao da discussão cantarolavam uma música qualquer. Havia me aproximado sem notar a disputa, talvez enganada pelo bailado, mas ao notar a cena que se desenvolvia, atordoada com o volume das vozes que se misturavam, afastei-me um pouco mais do grupo. Permaneci a uma distância que permitisse de alguma forma acompanhar o que se passava, quase que dando as costas para o grupo, uma tentativa de dissimular meu interesse em suas ações. Notei que a musica aleatoriamente entoada servia para encobrir a discussão e aqueles que passavam, dessa forma, não reteriam atenção nos assuntos debatidos.

Continuei minhas anotações, coletando dados e após alguns minutos percebi que, subitamente, a discussão tinha chegado ao fim; o alarido tinha cessado, não em razão da resolução da contenda, mas porque bem em frente ao grupo oito veículos policiais do Plan Vigipirate haviam estacionado. Os oficiais estavam envolvidos em ações de investigação em um imóvel no entorno da praça, de onde penso que partiriam para novas ações nas próximas horas, dado o caráter de sua preparação (roupas, armamentos, postura, comportamento de quem está seguindo uma sequencia de tarefas), os movimentos tensos e vigilantes, a inquietude que denunciava uma certa pressa na sequência de ações daquela noite. Era cedo e nesse momento percebi que, com maior recorrência, avistava os carros dessas equipes na cidade justamente no período da noite.

Longe de ser exclusivamente doce, a noite da cidade desperta situações que, em princípio, soam marginais à vida social. A noite é dada a permissividades, mais condescendente com enfrentamentos esparsos, mais indulgentes com contestações dispersas… Mesmo assim senti uma ponta de insegurança; havia uma força de repreensão ostensiva no ar.

A place Bellecour, palco historicamente animado por manifestações sociais, pela expressão de demandas sociais cotidianas e pelo anseio de um novo porvir que, ciclicamente, assentam processos de tessitura das noções de sociedade e cidade, revela igualmente as arestas dos dissensos presentes em processos de hibridização cultural, potenciais propulsores de transformações. Não obstante, cabe relembrar que transformações culturais pautam-se, inclusive, por traduções, em experiência que como pondera Canclini (2016, p. 66) “[…] relaciona o comparável com o incomparável, o que se pode comunicar e os silêncios”.

A pretensa estabilidade de sentidos, tensionada pelos impactos da interculturalidade, se desvela a partir destas duas situações, quase concomitantes, mobilizadoras de esforços suplementares que intencionam conservar referências, representações, laços… Todavia, desconsidera-se que a ação humana, como bem lembra Arendt (2008), está sempre a criar algo novo. 

As simultâneas e diversas ações – convergentes, ora divergentes e ora ainda liminares -, desenvolvem-se em espaços qualificados por intercâmbios com diferentes gradações, significados, amplitudes e sentidos, influenciadas por heterogêneas relações sociais primárias, via de regra reforçadas ou revistas nos variados tempos, sistemas, forças, estruturas, instituições e mundos intrínsecos aos processos de socialização secundária. Duplamente situados, sujeitos históricos não apenas mobilizam referências destes dois contextos, mas também engajam o desenvolvimento de redes com as quais mantêm vínculos e compromissos (DARMON, 2016).

A inércia das práticas ocultam juízos em construção e possibilidades de escolhas, bem como conjunturas nas quais táticas e estratégias imprimem ritmos distintos aos processos de transformação. Como asseverou Arendt (2008, p. 21), apoiando-se na asserção de Hegel (1830),

“A aversão da razão à contingência é muito forte […] ‘a contemplação filosófica não tem outro intento que não o de eliminar o acidental’ […] A falha de tal raciocínio começa em querer reduzir as escolhas a dilemas mutuamente exclusivos; a realidade nunca se apresenta como algo tão simples como premissas para conclusões lógicas. O tipo de raciocínio que apresenta A e C como indesejáveis e assim se decide por B, dificilmente serve algum outro propósito que não o de desviar a mente e embotar o juízo para a infinidade de possibilidades reais”.

Se por um lado o catastrofismo autorizaria o anúncio de ingerências sobre as vidas privadas, por outro lado, violências, de certa maneira ligadas às tramas entre corrupção, medo e indiferença, silenciosamente incentivam recuos, a busca do refúgio no íntimo. E, neste contexto de crise, uma questão que permanece posta, com possibilidades de re-construção, é a do compromisso individual, para a qual Arendt (2008, p. 57-58) recupera Thoreau: “Não é dever do homem, naturalmente, devotar-se à erradicação de um erro, mesmo o maior deles […]; mas pelo menos é seu dever não se comprometer com o erro, e não lhe dar apoio na prática no caso de não se importar com estas coisas”.

Tal compromisso não se assenta, portanto, na consciência, apolítica e subjetiva por natureza, circunscrita ao campo moral do indivíduo e de seus interesses pessoais, mas nos consentimentos com as alianças e com os acordos sociais, que em tese deveriam supor reciprocidade entre cidadãos, a união pela força de promessas mútuas e a possibilidade legal da dissidência/o direito de divergir. É, indiscutivelmente, a partir das práticas cotidianas que o referido consentimento anuncia autorizações, afiança estratégias que incluem ou excluem, que articulam ou desconectam, que entregam promessas de equidade ou participa cidadãos da tessitura dos desenvolvimentos. 

As experiências dramáticas das sociedades multiculturais das últimas décadas, em diferentes casos, silenciam “a face estrangeira da própria cultura” (CANCLINI, p.68), as múltiplas expressões de tradução, deslocando para o centro, o estranho. Aqui reside um embuste, que ilumina “[…] dispositivos que desestabilizam o próprio e o estranho, a inclusão e a exclusão, que ocorrem tanto no entorno imediato como em redes mundializadas”, desigualmente interdependentes.

As diferenças socioculturais são indissolúveis; as mais diversas experiências de alteridade denunciam jogos de identificação, de múltiplos pertencimentos e de distinções. Nas margens desses processos estão os estereótipos, os clichês; no centro, os intercâmbios e também as disputas de no e do lugar, os mecanismos para sentir-se próprio, assentados em permeáveis redes de familiaridades, camaradagens, solidariedades… de aquiescências.

Um segundo embuste coloca-se no horizonte das democracias modernas: o auto-embuste, que “[…] pressupõe uma distinção entre verdade e falsidade, entre o fato e fantasia […]”, que oscila entre o sigilo e o embuste deliberado e que, ademais, é desconectado do contato com o mundo real dos diferentes grupos sociais, dos fatos. Errantes embotados podem tirar suas mentes do mundo real, “[…] mas não podem tirar seu corpo” (ARENDT, 2008, p. 39). Que respostas teríamos  agora para a pergunta de Canclini (2016, p. 109): “[…] a democratização, entendida como o reconhecimento e regulação pública de direitos sociais, econômicos e políticos, é um ponto importante ainda na agenda de algum Estado?”

Referências

ARENDT, Hannah. 2008. Crises da República. São Paulo: Perspectiva.

CANCLINI, Néstor García. 2016. O mundo inteiro como lugar estranho. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

DARMON, M. 2016. La socialization. Paris, Armand Colin.

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